O futuro da direita brasileira: bolsonarismo enfrenta seu maior desafio após as eleições de 2026
José Natal analisa os conflitos do bolsonarismo e o risco de perda de poder do movimento diante da continuidade política da direita.

Afirmar, categoricamente, que a linha política bolsonarista tenha seus dias contados seria exagero, análise talvez precipitada. Mas está longe de ser absurda, muito menos desconsiderada.
Assim como surgiu, de repente e apoiado sem disciplina alguma, esse acontecimento, gerado a partir da semente germinada por Jair Messias Bolsonaro (71 anos), o movimento, dia após dia, dá passos largos rumo à autodestruição, dedicando a essa particularidade detalhes importantes, irrefutáveis.
Aos mais ponderados, desarmados e sem fuzis importados de nações mais bélicas, um convite a essa realidade, que se avizinha com um rico potencial de aceitação da triste fatalidade que diz: “O pior cego é aquele que não quer ver”.
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Lápis e papel na mão (à moda antiga), vamos aos fatos, impossíveis de serem contestados, se adotarmos a lógica como argumento e o bom senso como sentença.
Içado ao poder como presidente, em 2018, após arrecadar milhões de votos e impor uma derrota maiúscula ao adversário, Bolsonaro se vestiu de imperador, colocou armas na mão dos brasileiros e, com a voz alterada, tentou impor à mídia nacional um comando jamais visto em nosso país.
Veio a Covid-19, o mundo adoeceu, espalhou corpos sem vida pelos continentes e enlutou o Brasil de Bolsonaro, com o trágico cenário loteado com mais de 500 mil vítimas, muitas delas privadas de uma vacina que tardiamente chegou por aqui.
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Esbravejando contra tudo e contra todos que discordavam de seus métodos de governar e impor suas regras e vontades, deixou o país pela porta dos fundos após derrota nas urnas, jogando pragas ao vencedor e mandando às favas protocolos e troca de faixas, quando viu o poder lhe escapar entre os dedos.
O que se viu de lá para cá desenhou uma página infeliz de nossa história.
Julgado e condenado, com direitos políticos cassados, aprisionado e com a saúde precária, o que se esperava do patriarca era redenção, reestruturação de lideranças e busca nos aliados e apoiadores de uma constante e permanente reconstrução de pontes destruídas.
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Fez tudo ao contrário, num assumido inconformismo, ainda se postando como um líder sem munição, assistindo a conflitos familiares, instigando moribundos políticos espalhados pelo Brasil.
Fez dentro de casa a pior escolha que imaginava poder sucedê-lo, quem sabe ali a esperança de, no mínimo, poder pavimentar uma estrada de volta ao futuro.
Radical como sempre foi ao tomar posições, ignorou a lógica política do momento, arquivou a influência de São Paulo e Tarcísio de Freitas no auge da sua popularidade, acreditando eleger para o maior cargo político do país alguém que sequer um dia chefiou uma lanchonete que venda pão dormido.
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E o que é pior, sabendo que sobre ele pairavam dúvidas sobre tenebrosas transações.
Difícil projetar sadia continuidade de sucesso político a quem não cuida do patrimônio que venha do DNA, acumulando crises, processos jurídicos e atritos de toda ordem, quando a questão diz respeito a quatro paredes.
A derrota que sofreu nas urnas agora em 2026 (ainda contestada) escancarou de vez a fragilidade política que, há tempos, até os mais próximos já questionavam.
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Por ironia, ou quem sabe perigosa fatalidade para aqueles que ainda esperavam dias melhores para pai e filhos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro arrecada milhares de votos, ganha o posto de senadora da República e, com 44 anos (juventude política), por certo não se furtará a ocupar um espaço que, mesmo a contragosto dos filhos “adotados”, chegou, viu e venceu.
Após as eleições recém-encerradas, que deram à direita um poder político de real importância, sinaliza-se que os afagos e afetos antes dedicados aos Bolsonaros tendem a cair, ou quem sabe não sejam lá tão perfumados como tempos atrás.
A direita, como tem que ser, vai continuar fazendo o que sempre fez.
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O bolsonarismo, segundo caciques da própria aldeia, já entendeu que corre riscos de perda de poder. Risco real.
José Natal
Jornalista
Sobre quem assina
José Natal
José Natal do Nascimento é jornalista profissional, com trajetória em reportagem, edição, direção de redação e assessoria de imprensa. Experiência em redações Correio Braziliense (1970–1985): repórter, produtor, editor, chefe de reportagem
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