Lula inspira democratas nos EUA? A influência da eleição brasileira na onda azul americana
A vitória de Lula e a articulação digital de militantes brasileiros aparecem como inspiração para democratas na disputa americana.

Nove dias separam duas noites que entraram para a história recente das Américas. Em 25 de outubro, Lula virou, no segundo turno, uma eleição que parecia perdida, algo inédito desde a redemocratização. Em 3 de novembro, os democratas tomaram o Congresso dos Estados Unidos e pintaram de azul até o Texas. Entre uma noite e outra, uma ponte digital ligou Brasília a Washington, e quem atravessou essa ponte foram ativistas e militantes dos dois países.
Na madrugada de quarta-feira, enquanto as projeções confirmavam a derrota republicana, as redes americanas se encheram de "obrigado, Brasil" e "vocês nos inspiraram". Montagens mostravam a Estátua da Liberdade e o Cristo Redentor fazendo o L com as mãos. O ativista democrata Isaiah Martin, candidato ao Congresso pelo Texas, agradeceu ao país por "mostrar o caminho". Usuários citaram como modelo o "Exército do Lula", canal de WhatsApp que organizou a militância digital petista na reta final. Não foi gentileza diplomática: foi o reconhecimento de que a virada brasileira mostrou como se tira o eleitor de casa.
Os números explicam o fascínio. Entre o primeiro e o segundo turno, Lula passou de 53,9 milhões para 64,3 milhões de votos e cresceu em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Nas redes, segundo a consultoria Bites, suas interações semanais saltaram 470% antes do segundo turno, quebrando a hegemonia digital da direita. Era exatamente o que os democratas buscavam: eleitores desanimados que voltam a se engajar.
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O Brasil também entrou na campanha americana por outra porta. Quando Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami, com o aval de Trump e apesar da ordem do Supremo Tribunal Federal, a hashtag #DeportTheBolsonaros ficou três dias em alta no X, puxada por brasileiros e logo adotada por americanos. Para os democratas, o caso virou símbolo de dois pesos e duas medidas: enquanto o governo endurecia contra imigrantes e retirava proteções de haitianos e afegãos, abria as portas a um político que deixava seu país descumprindo uma ordem judicial. "Perder uma eleição não é motivo para asilo", resumiu o deputado Joaquin Castro, do Texas. A mensagem falava a um eleitorado em que 60% desaprovavam a atuação do ICE, a polícia de imigração.
O Texas fecha o círculo. Foi lá que Eduardo Bolsonaro, condenado pelo STF, escolheu viver, num estado que parecia blindado para os republicanos. Na terça-feira, o Texas elegeu um senador e uma governadora democratas, impulsionados pelo voto latino, que dois anos antes havia migrado para Trump. A ironia não escapou à deputada Erika Hilton, autora de um dos posts mais engajados sobre a eleição americana, segundo o instituto DDIA.
Nada disso apaga os motivos domésticos, e o principal deles pesou no bolso. A inflação americana chegou a 3,7% em setembro, contra 2,4% antes da guerra com o Irã. O galão de gasolina, que custava menos de 3 dólares, passou a 4,33 dólares, alta de cerca de 45%, e o diesel, que encarece o frete de quase tudo o que se compra, subiu 66%, segundo a ABC News. Às vésperas da eleição, oito em cada dez eleitores desaprovavam a forma como Trump lidava com o custo de vida, segundo pesquisa AP-NORC. Ele havia vencido em 2024 com a promessa de baixar os preços, e as tarifas e a guerra fizeram o contrário. Mas eleição não se ganha só com insatisfação; ganha-se com gente na fila de votação. Os eleitores democratas foram às urnas movidos, acima de tudo, pela oposição a Trump, segundo a rede CBS. E, para parte da militância democrata, o exemplo estava logo abaixo da linha do Equador.
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Trump pressionou o Brasil com tarifas e sanções durante a campanha e viu seu aliado perder. Nove dias depois, perdeu em casa. Lula havia avisado que o Brasil não é quintal de ninguém. Parte dos americanos entendeu o recado e respondeu com um agradecimento.
Da redação
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Daniel Xavier
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