Vivo, sim. E tô votando!
A mobilização dos idosos nas eleições de 2026 deixou um recado que vai muito além das urnas: envelhecer não significa perder a voz, a relevância ou a capacidade de transformar o país.

As eleições de 2026 trouxeram à cena uma força que, muitas vezes, a sociedade insiste em ignorar: a dos brasileiros mais velhos. Homens e mulheres de 70, 80, 90 e até mais de 100 anos fizeram questão de comparecer às urnas.
Alguns enfrentaram dificuldades de locomoção. Outros precisaram da companhia de familiares. Mas todos tinham algo em comum: a vontade de participar das decisões sobre o futuro do país. E há um detalhe especialmente significativo nessa mobilização. Depois dos 70 anos, o voto deixa de ser obrigatório. Passa a ser uma escolha.
Mesmo assim, milhões escolheram participar.
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No primeiro turno, 8,77 milhões de eleitores com 70 anos ou mais foram às urnas. Um crescimento de 43% em relação às eleições de 2022, segundo levantamento do Movimento Voto 70+, realizado em parceria com o centro de pesquisa Data8, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Foram 2,64 milhões de votos a mais. Pela primeira vez desde 2014, mais da metade dos eleitores dessa faixa etária participou da votação. No segundo turno, realizado em 25 de outubro, essa disposição ganhou rostos, nomes e histórias.
No Rio Grande do Norte, Francisco da Costa, de 74 anos, resumiu seu compromisso com a democracia em uma frase: "Enquanto eu puder andar, eu estou votando."
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Também no estado potiguar, Erotildes Maria da Silva, de 95 anos, fez questão de participar. Para ela, votar é uma maneira de contribuir, sobretudo, para o futuro das novas gerações.
Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Jorge Englert, de 102 anos, compareceu ao local de votação e contou que nunca deixou de participar de uma eleição.
Em Janduís, no interior do Rio Grande do Norte, Aleixo Siliro da Silva, de 107 anos, foi votar acompanhado do neto. Já em Almino Afonso, no mesmo estado, Pedro Severino da Silva, de 100 anos, também fez questão de exercer seu direito.
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E Maria Cecília, de 79 anos, enfermeira aposentada, lembrou, em entrevista ao portal Opera Mundi, que o voto feminino foi uma conquista histórica: "Não é porque ficou idoso que não tenha motivo para decidir."
Histórias não apenas exemplos de cidadania, mas demonstrações de vitalidade, consciência política e protagonismo. Um movimento que nos faz refletir sobre algo que já é uma realidade no país: o Brasil está envelhecendo, mas parece não ter se preparado para tal realidade.
Em 2000, eram 15,2 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Em 2023, já ultrapassava 33 milhões. E, segundo projeções do IBGE, chegará a 75,3 milhões em 2070, quase 38% da população.
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Hoje, especialmente no mercado de trabalho, a juventude é frequentemente tratada como sinônimo de inovação, enquanto a maturidade passa a ser confundida com obsolescência.
Mas há uma vantagem extraordinária em pertencer a uma geração que atravessou dois mundos. Nós conhecemos o analógico, vivemos suas experiências e aprendemos a nos adaptar ao digital. Podemos dominar as novas tecnologias sem perder a memória de como o mundo funcionava antes delas. Entretanto, a recíproca não é verdadeira. Os mais jovens podem conhecer o passado, mas nunca terão a vivencia dele.
O que não torna melhores uns ou outros. Torna apenas o repertório diferente. A experiência não compete com a juventude. Ela a complementa.
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A memória também é uma ferramenta para pensar o futuro.
E talvez esteja aí a dimensão mais importante da mobilização que vimos nas eleições deste ano.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula. No segundo, o resultado se inverteu. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos.
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Não é possível atribuir essa virada exclusivamente ao eleitorado idoso. Mas o aumento expressivo de sua participação no primeiro turno e as histórias de quem fez questão de votar no segundo mostram que essa geração continua querendo participar das grandes decisões nacionais.
Um Brasil que envelhece, mas não se cala. Que carrega memórias, mas continua olhando para a frente. Que conhece o passado e quer participar das decisões sobre o futuro.
O futuro não pertence exclusivamente aos jovens. Tampouco aos mais velhos.
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E, se as eleições de 2026 deixaram algum recado sobre a força da longevidade, para mim ele é claro:
Vivos, atuantes e a postos para mudar o curso da história.
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Katia Maia
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