Eleição muda o cenário político e força bolsonarismo a rever rumos
Em coluna, José Natal defende aceitar o resultado das urnas, cobrar os eleitos com rigor e equilíbrio e vê sinais de reavaliação de roteiros no campo bolsonarista.

Dos inúmeros personagens presentes no romance de ficção Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932, talvez o que teve o fim mais trágico foi John, “O Selvagem”. Talvez. Opinião meramente interpretativa.
Para muitas crenças, o ato de tirar a própria vida pune mais os que o querem entre os vivos. Desiludido, com vazio moral, uso de drogas e frágil diante de novas realidades, John desistiu de viver. O novo incomoda, surpreende, muitas vezes perturba, mas quase sempre incentiva o recomeço. Vale pensar sobre isso, quem sabe traçar um paralelo com o momento em que vivemos.
Não vamos nos entregar, não há motivos para exagero desse porte. Há, sim, e em dose elevada, uma grande e incômoda preocupação com o ambiente político atual, acalorado a cada semana (ou a cada dia), diante das últimas ocorrências registradas em quase todos os seus segmentos, dogmas, tribos e afins. Nunca se viu nesse país tanto radicalismo, intolerância verbal, preconceitos e atitudes bestiais, usando como moeda de troca o fanatismo exacerbado e incontrolável em adoração àqueles que, sejamos sinceros, valem bem menos do que é oferecido, é fato.
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O que espanta, surpreende e muitas vezes arremete o debate para um terreno vazio, sem perspectivas e sinais de alienação, é a pouca aceitação de verdades incontestáveis. Doloridas, é verdade, pouco resistentes a argumentos práticos.
Vamos aos fatos. A eleição aconteceu, um candidato foi eleito, um candidato perdeu e amanhã o Sol vai nascer de novo, quer gostemos ou não. Mais do que justa e honesta, a contestação dos insatisfeitos, o aborrecimento e o mau humor pelos dias seguintes. Essas são as manifestações aceitáveis, juntadas a elas apuração dos fatos, comprovação do que foi feito e empenho para que erros (e houve erros) não se repitam, não aconteçam mais.
Há uma incômoda e preocupante situação econômica do país, falhas pontuais em vários setores e carência efetiva de competência em áreas em que todos nós temos algo a perder. Vamos cobrar por isso: é nosso dever, obrigação e direito. Se algo não for feito, que as cobranças continuem; é assim que deve ser, com rigor, mas com equilíbrio.
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Ainda na cartilha do que pede o novo, a renovação exige que a boa política se faça presente. Rasgar páginas que muitos acham que prejudicam nossa história pode ser o começo da aceitação pelo novo, o admirável, o inovador. Militantes já fatigados da opressão bolsonarista e da persistente e cansativa pregação do revanchismo raivoso são os primeiros a sinalizar que pode estar chegando a hora do basta, para eles mesmos.
De São Paulo, Tarcísio de Freitas, sabedor de que gestos políticos antecipados podem gerar bons frutos, foi o primeiro a levantar a bandeira branca, admitindo a derrota e espalhando aos vizinhos (todos eles) que seu nome já está na lista dos prováveis candidatos às eleições de 2030.
Na mesma direção, com uma mala cheia de votos e aprovação popular, a senadora Michelle Bolsonaro emite acordes dissonantes, polegar para cima, anunciando presença. Dela não se ouviu sequer um sussurro de lamento pela fuga cinematográfica daquele que um dia (e até hoje) a menosprezou. Há quem ache que há no ar um sorriso enigmático de vingança. A maioria tem certeza.
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Com Jair Bolsonaro encarcerado, Eduardo sem mandato, fazendo palestras a plateias de surdos, e agora com Flávio se agarrando a terços e apelos evangélicos, difícil não admitir que essa sigla caminha para a esperada reavaliação de roteiros. O que foi feito até agora trouxe apenas desgaste, processos, prisões e mágoas. Alguma coisa deve estar errada. Ou todas elas.
Sobre quem assina
José Natal Jornalista
José Natal do Nascimento é jornalista profissional, com trajetória em reportagem, edição, direção de redação e assessoria de imprensa. Experiência em redações Correio Braziliense (1970–1985): repórter, produtor, editor, chefe de reportagem
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